Agência Lusa: Assim se faz jornalismo em Portugal

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A Agência Lusa convidou-me para uma entrevista a propósito da conclusão do meu curso de Medicina. Nada aparentemente diferente das cerca de 30 entrevistas que dei a diversos órgãos de comunicação social ao longo dos últimos 10 meses. A surpresa chegou quando me deparei com o texto publicado: pouco do que a jornalista escrevera transmitia o espírito do que fora dito por mim e pela minha colega Paula Fidalgo e, ainda mais grave, havia citações de frases que eu nunca proferi e com linguagem que, definitivamente, não utilizo naquele contexto. Contactei a jornalista que me pediu que enviasse uma correcção. Assim fiz. A correcção da Lusa, no entanto, apenas versa sobre um dos aspectos focados e continua a apresentá-lo de forma descontextualizada.

Transcrevo a comunicação que fiz à Agência Lusa e ao seu Director, aguardando que a verdade seja reposta.

«Tendo tido conhecimento da divulgação de uma notícia sobre os novos licenciados em Medicina da Universidade do Minho, a propósito de uma entrevista por nós concedida durante a tarde de ontem à Agência Lusa, cumpre-nos esclarecer que apesar de conter algumas afirmações que correspondem ao que por nós foi dito, muitas das ideias veiculadas e das frases citadas não correspondem àquilo que foi transmitido ao longo da referida conversa, encontrando-se outras completamente descontextualizadas.

1. «Tanto a universidade como os hospitais de Braga e de Guimarães fizeram um grande investimento em nós. Não só por sermos os primeiros alunos mas também porque a Escola de Ciências da Saúde vai ficar conhecida pela formação humana que dá aos futuros médicos». Estas afirmações não foram feitas na sequência/contexto apresentado. O que foi dito é que «Tanto a universidade como os hospitais de Braga e de Guimarães fizeram um grande investimento em nós, não só por sermos os primeiros alunos, mas também porque acreditam e estão motivados para o projecto de ensino-aprendizagem.» Noutro contexto foi dito que «a Escola de Ciências da Saúde vai ficar conhecida pela formação humana que dá aos futuros médicos ».

2. «há mais investigação e mais meios nos hospitais centrais». A afirmação é da jornalista e não da Paula Fidalgo. Em resposta à pergunta, Paula Fidalgo afirmou que os principais motivos que a prendiam ao eixo Porto-Braga eram a família e as oportunidades destas regiões e não necessariamente as condições dos hospitais.

3. «lutou durante todo o curso "contra o preconceito de que só os alunos com dinheiro é que estudam medicina" ». Esta afirmação não corresponde ao que foi dito. O que se disse foi: "é preciso desconstruir a ideia de que as pessoas só vão para Medicina por causa do dinheiro".

4. Por outro lado, a afirmação "Vou trabalhar e ser pago por isso. Não vou fazer beneficência" surge de uma forma completamente descontextualizada. O que foi dito é que as pessoas não deviam ver a medicina como beneficiência, mas sim como um serviço prestado à comunidade com competência científica, técnica e humana e, obviamente, remunerado.

5. «No início, algumas pessoas e algumas instituições torciam o nariz ao curso de Medicina em Braga ». Esta afirmação foi feita pela jornalista e não pelos alunos. E à pergunta que se seguiu (qual é a vossa opinião?) a resposta dos alunos foi precisamente: "no início sentimos alguma desconfiança não da parte das instituições mas apenas de algumas pessoas. Com o tempo sentimos que a maioria das pessoas procurava aprender com a experiência pedagógica do nosso curso, tendo mesmo sido convidados para falarmos sobre essa experiência em pelo menos duas faculdades clássicas."

6. «Entre essas iniciativas, alguns estudantes incluíram "fazer campanha pelo Sim no referendo pela Despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez» Esta afirmação surge mais uma vez completamente descontextualizada. Em momento algum foi afirmado que a campanha para o referendo fazia parte das iniciativas do curso de Medicina. Em resposta à pergunta da jornalista "Custa-me compreender os médicos que são objectores porque a função do médico devia ser exactamente ajudar quem procura ajuda?", Pedro Morgado afirmou: "Compreendo perfeitamente a posição de quem é objector de consciência. Estou à vontade para falar sobre este assunto porque até fiz campanha pelo sim, mas quando se fala de IVG têm que se respeitar os valores e as convicções de cada pessoa e assunto é bastante mais complexo do que a simples vontade da mulher…"

7. "Tenho a certeza que a grande maioria dos licenciados na Escola de Ciências da Saúde não será objector de consciência " Esta afirmação é completamente falsa. Quando questionados sobre a sua percepção sobre esta matéria os alunos responderam que não poderiam falar pelos colegas e que, por ser um assunto recente, ainda não tinha sido muito debatido entre eles.

Porque o direito de informar não pode estar dissociado do dever de informar com rigor e verdade, vimos solicitar a rápida reposição das afirmações feitas e a alteração do teor e do conteúdo da notícia apresentada.

Atenciosamente,
Paula Fidalgo e Pedro Morgado.»


Tantas horas depois, a notícia mantém-se... Todos temos dias maus. Ontem, a jornalista não captou, de modo algum, a mensagem que lhe transmitimos. A Lusa não pode dar-se ao luxo de colocar nas minhas palavras afirmações que nunca proferi.
Assim se faz mau jornalismo em Portugal.

Adenda - A Agência Lusa informou-me telefonicamente que a notícia iria ser retirada. Mas a notícia continua a ser replicada pelos jornais. (RTP, Correio da Manhã)

15 comentários:

  1. Afinal o que é inteiramente verdade do que se lê em Portugal? Tenho a ideia que os blogs são mais fidedignos que alguns jornais.

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  2. Caro Pedro parece que este é um mal do mundo moderno da comunicação, as afirmações são retiradas do contexto e aplicadas num contexto de sensacionalismo, do que pode vender mais. Depois passado algum tempo vemos um pequeno desmentido ou um pequeno pedido de desculpas.
    Cada vez mais me convenço que as noticias são feitas, construídas e montadas nas redacções…

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  3. Meu caro Pedro Morgado,

    Com esta deve ter aprendido como se faz jornalismo em Portugal. Asseguro-lhe que, da Lusa, nunca mais lhe pedirão uma entrevista....

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  4. Bem vindo ao clube...E olha que o teu caso, não é muito grave em relação a outros bem mais cabeludos saídos da que se auto intitula de agência noticiosa de Portugal.

    Solidariedade.

    Pedro Antunes

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  5. ... mas ainda há bons jornalistas em Portugal!!!

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  6. Caro Pedro,
    tendo conhecido este blog após o seu comentário à notícia sobre Braga, subscrevi-o imediatamente passando a ser leitura obrigatória. Fi-lo porque o tema me é querido e porque a escrita é muito boa. Por isso, deixo-lhe desde já, os meus parabéns.

    Em relação a esta notícia, ela não é mais do constatar de como vem sendo feito o jornalismo em Portugal, onde a informação não é o importante. Importante é o impacto que se pode provocar com a informação que o jornalista tem - retirado do contexto ao não, colocando a frase completa ou omitindo a parte que melhor convém. No limite, inventa-se algo sobre aquilo que se deve informar. O público, esse, não sabe ou não se importa.

    Por tudo isso, considero este esclarecimento... esclarecedor!

    Um abraço,
    António Soares

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  7. pá não fiques tão irritado, que ao menos ficaste todo giro na foto, e depois é só isso que fica na memória...

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  8. Desde já os meus sinceros parabéns por terem concluído este objectivo — a licenciatura. Resta-me desejar-vos um bom período de estudo até ao exame de ingresso na O.M. e uma boa performance nesse teste.
    Quanto ao teor do teu comentário: É triste constatar que, infelizmente, anda muito por baixo o jornalismo português e não é por falta de bons jornalistas. Faz-se tudo com uma ligeireza atroz e, para piorar, tudo adultera-se o que nunca deveria ser beliscado — o rigor da informação prestada aos leitores.
    Estou contigo neste protesto.
    Voto por um serviço de imprensa de melhor qualidade!

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  9. É triste, muito triste, que se descontextualize dessa forma.

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  10. Tristes, tristes são as generalizações. Pq se assim se faz jornalismo, a acreditar nas suas palavras - e não tenho pq não acreditar -, tb se faz de outra maneira, bem portanto. É como em todas as profissões, não será Pedro?
    Ou vai dizer-me que os médicos não erram? Erram, pois...
    Um dos problemas dos jornalistas é que publicam os seus erros. Os médicos matam-nos e os advogados manda-nos para a prisão ou para a cadeira eléctrica (noutras paragens, bem entendido).
    Caro Pedro, tenho ultimamente visitado o seu blog e ficado bem impressionado com a sua sensatez - ainda mais qd me apercebi ser você ainda um jovem.
    Pelo que, caro Pedro, tenhamos, todos nós, mais cuidado com as generalizações.
    Cumprimentos,
    GS

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  11. Cara(o) GS,

    É óbvio que todas as generalizações são perigosas. Concordo com o teor das suas palavras.

    É por isso que o post termina com um Assim se faz mau jornalismo em Portugal.

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  12. Pois acaba, mas não é assim que começa...
    GS (o)

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  13. amuei, não ligou nada ao meu piropo...

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  14. É uma pena que gente como esta, e juntamente com ela tantos outros, desprestigiem o jornalismo desta forma.

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