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Caí do Pedestal

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© Saulo Cruz

Cai do pedestal! Não há discurso político, ou dos políticos que não aborde a questão do desemprego e da crise. Parece quase criminoso, imoral, insensível não falar do “flagelo” do desemprego, ou da crise mundial. Mas será um discurso realmente percebido?

Caí do pedestal! Tantos homens, mulheres, jovens com quem convivo, ou convivi diariamente, que frequentaram as mesmas escolas que eu, os mesmo cafés que eu, os mesmo espaços públicos que eu, vivem uma vida incerta, injusta e inexplicável.

Caí do pedestal! E para onde caminhámos nós? É certo, dizem os especialistas, e os que não o são, que o crescimento do desemprego está relacionado com a crise (…) a malfadada crise financeira que teve origem nos EUA e se alastrou ao resto do mundo.

Caí do pedestal! Se alguém tinha dúvida que o neo-liberalismo cavalgante não serve o interesse do Homem, certamente tê-la-á dissipado. Todavia a contraposição do modelo interventivo, assistencial e social do Estado começa, também, hoje a ser posto em causa, até pelos que mais dele retiram beneficio: os que mais precisam!

Caí do Pedestal! Há muito que as sociedades modernas perderam o contributo tolerante, voluntário e comprometido da classe média, daqueles que são o garante previdencial do Estado. As classes altas, honrosas excepções que confirmam a regra, nunca foram verdadeiramente coniventes com a social-democracia instituída. Aliás a perda do estatuto adquirido pela riqueza produzida, pelo latifúndio ou pela linhagem, é do ponto de vista das classes altas uma “conquista imperdoável das sociedades modernas”.

Caí do Pedestal! Todavia, também, o Estado previdencial, tem um limite! A antevisão de um futuro sem subsídio de desemprego, esgotado; um futuro sem a social inserção que o rendimento visava; é um futuro sem futuro. Não creio que não estejamos a correr para a ruptura social. O fenómeno do desemprego acarreta consigo espirais de delinquência, muitas das vezes pela sobrevivência, doenças psicológicas, depressões que levam ao suicídio.

Caí do Pedestal! As metas da estratégia de Lisboa, definidas pela UE, que visava o pleno emprego, através de um Pacto de Estabilidade para o emprego, estatuído na ideia de que os braços caídos não contribuem para a produção da riqueza, foram esquecidas. Hoje, já não se fala em pleno emprego, fala-se no combate ao desemprego, e isso parece sintomático da incapacidade dos Estados controlarem a política económica e de emprego.

Caí do Pedestal por vários motivos: o desemprego é um fenómeno cujos efeitos individuais e colectivos nem sempre são perceptíveis, particularmente por quem não os vive, e eu não fujo à regra; porque o modelo social e económico do Estado e da Social-Democracia está desacreditado; porque só agora percebi isso!

Texto de Luís Soares.

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